Larry Summers renuncia a cargos públicos após revelações de vínculos com Jeffrey Epstein

Larry Summers renuncia a cargos públicos após revelações de vínculos com Jeffrey Epstein
dezembro 14 2025 Thalyta Selvatici Machado

Quando Larry Summers anunciou sua renúncia ao conselho da OpenAI na quarta-feira, 19 de novembro de 2025, muitos acharam que era apenas mais um afastamento político. Mas a verdade era muito mais pesada: ele estava se despedindo de uma carreira inteira, envenenada por uma amizade que nunca deveria ter existido. Summers, ex-secretário do Tesouro dos EUA e ex-reitor de Harvard, mantinha e-mails com Jeffrey Epstein até um dia antes de seu arresto em 6 de julho de 2019. E não eram e-mails sobre economia. Eram mensagens estranhas, íntimas, desesperadas — sobre uma mulher que ele chamava de "mentora" e que ele queria conquistar. "A probabilidade de você voltar a estar deitado com ela é zero", respondeu Epstein, em tom de piada, antes de acrescentar: "Ela nunca vai encontrar outro Larry Summers. Probabilidade ZERO."

Uma amizade que durou até o fim

Os mais de 20.000 arquivos de e-mail liberados pelo comitê da Câmara dos Representantes em 13 de novembro de 2025 revelaram um padrão perturbador: Summers não apenas manteve contato com Epstein após sua condenação em 2008, como buscou conselhos dele sobre relacionamentos amorosos — mesmo depois que o Departamento de Justiça abriu uma investigação em fevereiro de 2019 sobre o famoso "acordo do século" que permitiu a Epstein evitar dezenas de acusações federais. O ex-ministro perguntava sobre a "probabilidade" de conquistar uma jovem acadêmica, comparando o cenário à previsão da reeleição de Trump. Epstein, por sua vez, respondia com ironia cruel, como se fosse um guru de sedução. Nada disso era anedótico. Era patológico.

Até mesmo o momento da despedida foi ambíguo. Summers disse, em comunicado, que se sentia "profundamente envergonhado" e assumiu "total responsabilidade". Mas não houve arrependimento sincero — apenas o cálculo de alguém que percebeu que o escândalo havia se tornado insustentável. Ele não se desculpou pela vítima. Não mencionou o sofrimento das mulheres que Epstein abusou. Focou apenas em si mesmo. E isso, para muitos, é o pior de tudo.

Harvard, o epicentro do escândalo

Harvard University, onde Summers foi reitor entre 2001 e 2006, anunciou na mesma quarta-feira que estava iniciando uma nova investigação sobre seus funcionários envolvidos com Epstein. A universidade já havia revisado doações de Epstein — R$ 9,1 milhões recebidos antes da condenação — mas nunca havia examinado relações pessoais. Agora, isso muda. Summers foi professor no Harvard Kennedy School's Center on Business and Government e ensinava até esta semana. Agora, não mais. Seu nome será removido de eventos, seus artigos deixarão de ser citados como autoridade. E mesmo assim, muitos alunos não acham que é suficiente.

"Sua associação com Epstein e suas interações são repugnantes", disse Eunice Chon, estudante e cofundadora da Coalizão Feminista de Harvard. "Não é só um erro de julgamento. É uma escolha moral que revela o que ele realmente valoriza: poder, influência e conexões, mesmo que sejam as mais podres."

Walter Johnson, professor de estudos africanos e afro-americanos, foi mais direto: "Eu não sentiria falta dele." E não foi um comentário emocional. Foi um juízo histórico. Johnson sabe que Summers foi um dos arquitetos da desregulação financeira nos anos 1990 — e agora, sabe que ele também foi um dos que legitimaram um predador.

Outros vínculos cortados — e o que isso significa

A queda de Summers foi em cascata. A Center for American Progress, o Yale Budget Lab, a Bloomberg e o The New York Times todos confirmaram o fim de seus vínculos. O contrato de colunista da Times, que terminaria em janeiro de 2026, não será renovado. A Bloomberg, que o mantinha como colunista desde 2021, o afastou imediatamente. O que isso mostra? Que as instituições, por mais que tentem se esconder atrás de "processos", estão sendo forçadas a escolher entre reputação e complicity.

Ray Madoff, professora de filantropia na Boston College Law School, apontou o cerne do problema: "Esses e-mails não são só sobre Summers. São sobre como instituições de prestígio se tornam reféns de doadores ricos — mesmo quando eles são criminosos." Epstein financiou centros acadêmicos, eventos, pesquisas. E em troca, ganhou acesso a salas de reuniões que nunca deveriam ter sido abertas para ele. Summers foi apenas o mais visível de uma longa lista.

Um passado já conturbado

Um passado já conturbado

Este não é o primeiro escândalo de Summers. Em 2005, ele gerou uma tempestade ao sugerir, em um discurso em Harvard, que mulheres poderiam ser menos aptas naturalmente para carreiras em ciência e matemática. Foi uma declaração que gerou protestos, pedidos de demissão e um pedido de desculpas que nunca foi totalmente aceito. Agora, 20 anos depois, o que parecia um erro acadêmico se revela parte de um padrão: a crença de que certas pessoas — homens brancos, ricos, poderosos — estão acima das regras morais que aplicam aos outros.

Além disso, foi em 2005 que Summers e sua esposa, a professora emérita Elisa New, visitaram a ilha privada de Epstein durante a lua de mel. Um dia. Menos que isso, segundo o porta-voz. Mas uma visita que, em retrospectiva, parece uma escolha deliberada — uma entrada simbólica no mundo de Epstein. Três anos antes da condenação de Epstein por prostituição de menores, Summers já estava lá. E ninguém questionou.

O que vem a seguir?

As instituições agora enfrentam uma pergunta difícil: até onde vão os efeitos colaterais de um relacionamento com um criminoso? Se Summers foi expulso, e Epstein morreu na prisão em 2019, quem mais está escondido nos arquivos? A investigação de Harvard pode revelar nomes de outros acadêmicos, políticos, empresários. E se isso acontecer, será apenas o começo. Porque o problema não é Summers. O problema é o sistema que permitiu que ele, e tantos outros, operassem com impunidade.

Um legado em ruínas

Um legado em ruínas

Larry Summers foi um dos economistas mais influentes da última geração. Seu nome aparece em livros-texto, em decisões de política monetária, em discursos da Reserva Federal. Mas agora, seu legado está em pedaços. Não por erros técnicos. Não por divergências ideológicas. Mas por uma escolha moral que ele não apenas fez — mas que continuou, anos após o mundo já saber quem Epstein era.

Quando a história escrever sobre ele, não vai lembrar das previsões de crescimento ou das reformas tributárias. Vai lembrar das mensagens que ele trocou com um predador. E da pergunta que ninguém mais ousa fazer: quantos outros, como ele, ainda estão sentados em mesas de conselho, com as mãos limpas — mas os olhos abertos para o que acontece nas sombras?

Frequently Asked Questions

Como Summers conseguiu manter contato com Epstein mesmo após a condenação dele em 2008?

Apesar da condenação de Epstein por prostituição de menores em 2008, Summers continuou a interagir com ele por mais de uma década. Isso foi possível porque Epstein, mesmo preso, manteve redes de influência e acesso a elites. Summers o via como um "consultor financeiro" e um contato valioso em círculos de riqueza — ignorando os crimes que já eram públicos. A falta de supervisão ética em instituições como Harvard permitiu que esse relacionamento persistisse sem questionamentos.

Quais instituições já cortaram vínculos com Summers?

Summers renunciou ao conselho da OpenAI, deixou o Centro de Negócios e Governo da Harvard Kennedy School, foi afastado da Bloomberg como colunista e teve seu contrato com o The New York Times não renovado. O Center for American Progress e o Yale Budget Lab também confirmaram o fim de suas associações. Essas decisões foram tomadas em menos de 48 horas após a divulgação dos e-mails, indicando pressão pública e institucional sem precedentes.

O que a universidade de Harvard fez em relação às doações de Epstein?

Harvard já havia reconhecido receber US$ 9,1 milhões de Epstein antes de sua condenação, e doou os fundos não utilizados a organizações que apoiam vítimas de tráfico sexual. Mas a investigação anterior, conduzida sob o reitorado de Larry Bacow, não examinou relações pessoais entre Epstein e funcionários da universidade. Agora, com os novos e-mails, a universidade está obrigada a investigar se professores ou administradores tiveram contatos diretos — algo que nunca foi feito antes.

Por que os e-mails de Summers são tão chocantes?

Eles mostram Summers buscando conselhos sobre como seduzir uma jovem acadêmica, tratando-a como um "projeto" e usando linguagem que mistura manipulação com cálculo estatístico. Epstein respondeu com ironia cruel, como se fosse um mentor de corrupção. O choque não está apenas no conteúdo, mas no fato de que Summers, um dos intelectuais mais respeitados dos EUA, se reduziu a pedir aprovação a um criminoso sexual. Isso revela uma desumanização sistêmica entre elites.

Há risco de outras pessoas serem expostas por causa desses e-mails?

Sim. Os mais de 20.000 arquivos liberados incluem comunicações com dezenas de nomes de acadêmicos, políticos e empresários. Embora Summers seja o mais conhecido, investigadores já indicam que há pelo menos 15 outros indivíduos com correspondências significativas com Epstein. A pressão por transparência está crescendo, e novas revelações podem surgir nas próximas semanas, especialmente se órgãos como o FBI ou o Congresso decidirem ampliar a investigação.

Summers já se desculpou pelas vítimas de Epstein?

Não. Em todos os seus comunicados, Summers apenas se desculpou por "seus próprios erros de julgamento" e pelo "sofrimento causado" — mas nunca mencionou as mulheres que foram abusadas por Epstein. Ele não pediu perdão a elas, não as nomeou, não reconheceu sua dor. Isso é visto por ativistas e sobreviventes como uma falha moral fundamental: ele se arrependeu de ter sido pego, não de ter se associado a um predador.

14 Comentários

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    Diego Almeida

    dezembro 14, 2025 AT 19:12

    Essa história é um verdadeiro disaster capitalism em pessoa. 😔 Summers era o arquiteto da desregulação que abriu portas pra tudo isso - e agora, só se arrepende porque foi pego? A moralidade dele era um spreadsheet com fórmulas de poder, não ética. 🤡

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    Vinícius Carvalho

    dezembro 16, 2025 AT 04:37

    Eu só queria que mais gente entendesse que isso aqui não é só sobre um cara ruim... é sobre um sistema que recompensa gente assim. 🤝 Se você é branco, rico e inteligente, pode até abusar - desde que não seja pego. A gente precisa mudar as regras, não só trocar os jogadores.

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    Rejane Araújo

    dezembro 17, 2025 AT 13:22

    Meu coração dói pelas mulheres que sofreram e nunca tiveram voz. 💔 E isso aqui? É só a ponta do iceberg. Mas pelo menos agora as instituições estão sendo forçadas a olhar pra dentro. Espero que isso vire um movimento, não só um escândalo passageiro.

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    agnaldo ferreira

    dezembro 19, 2025 AT 02:43

    É imperativo, sob o prisma da ética institucional e da responsabilidade social, que as universidades e centros de pesquisa adotem protocolos rigorosos de due diligence em relação a financiadores e consultores. A normalização de relações com indivíduos condenados por crimes sexuais constitui uma falha sistêmica de governança.

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    pedro henrique

    dezembro 19, 2025 AT 08:37

    Calma lá, pessoal. Ele só trocou e-mail. Todo mundo tem amigos estranhos. Se ele não abusou de ninguém, por que todo esse fogo? O mundo tá virando um tribunal de opinião. 😒

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    Gilvan Amorim

    dezembro 19, 2025 AT 09:16

    Isso tudo me lembra daquela frase de Camus: "A verdadeira rebelião é a recusa em ser tratado como um objeto." Summers tratou pessoas como números, Epstein como consultor, e o sistema como algo que não precisa de consciência. Aí, quando o jogo vira, ele se esconde atrás de "arrependimento". Mas o que é arrependimento sem reparação?

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    Bruna Cristina Frederico

    dezembro 21, 2025 AT 07:51

    Se vocês acham que isso é só sobre Summers, estão errados. Isso é sobre quem vocês são, o que vocês aceitam, e o que vocês silenciam. Cada vez que alguém diz "isso não é problema meu", vocês estão alimentando o sistema. E isso? Isso é um alerta. 🚨

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    Flávia França

    dezembro 22, 2025 AT 01:01

    Summers era o tipo de cara que usava um terno de 5 mil reais pra pedir conselho sobre como seduzir uma garota de 22 anos... com um criminoso que tinha um avião chamado "Lolita Express". 🤯 Isso não é má escolha - é uma manifestação de uma cultura que vê mulheres como peças de xadrez e homens como reis imunes.

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    Alexandre Santos Salvador/Ba

    dezembro 23, 2025 AT 09:40

    Isso tudo é uma armadilha da esquerda globalista pra destruir os homens brancos de sucesso. Epstein era um agente da CIA, e Summers só foi usado pra desviar o foco da verdade. Vocês não veem o jogo? 🤫

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    Wanderson Henrique Gomes

    dezembro 23, 2025 AT 21:09

    Quem tá falando de "moralidade" aqui? O próprio sistema que permitiu isso é o culpado. Eles não querem mudar nada - só querem sacrificar um cara pra parecer que estão fazendo algo. Mas o problema é estrutural. E isso aqui? É só um show. 🤷‍♂️

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    João Victor Viana Fernandes

    dezembro 25, 2025 AT 16:52

    É curioso como a humanidade sempre precisa de um bode expiatório. Summers não é o mal - ele é o reflexo de um tempo que valoriza o poder acima da empatia. E a pergunta real não é "o que ele fez?" mas "o que nós permitimos que ele fosse?"

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    Mariana Moreira

    dezembro 27, 2025 AT 06:19

    Ohhh, então agora ele "se sentiu envergonhado"? 🙄 Como se isso fosse um tweet de desculpas depois de postar uma foto com um monstro! E ainda tem gente que acha que ele é "um gênio da economia"... Gênio? Não. Ele é um predador com diploma.

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    Mayri Dias

    dezembro 28, 2025 AT 05:35

    Na minha cidade, tem um professor que ainda fala bem de Epstein. Ninguém fala nada. Porque é confortável. Mas isso aqui? Isso é o momento de dizer: "não mais". Não mais silêncio. Não mais complicity. 🌱

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    Diego Almeida

    dezembro 29, 2025 AT 00:12

    Exatamente. E olha só: o que acontece quando você remove o nome de Summers de um prédio? Nada. Mas quando você remove a cultura que o elevou? Aí, sim. A gente precisa de educação ética, não só de limpeza simbólica. 🧠

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